terça-feira, 20 de outubro de 2009

"A diplomacia rubro-vesga dos sub-desenvolvidos"

IIªParte

Como eu disse no início desse texto (posto anterior), graças a uma série de motivos o Brasil cresceu muito no cenário mundial; deixando de ser uma voz coadjuvante para tomar os contornos de um trovão quando se manifesta sobre algum assunto.Um exemplo disso são os nomes da diplomacia brasileira que se tornaram postulantes a cargos em organizações mundiais, assim como o próprio país que tem trabalhado por uma vaga definitiva no Conselho de Segurança da ONU; já que hoje; o Brasil ocupa uma cadeira provisória como representante do continente até porque os Comandantes do Universo não gostariam de ter Chavez jogando WAR em plena mesa de reuniões.

Em decorrência desse crescimento, muitos fatos internos e externos tem colocado o país nas manchetes da mídia internacional, exigindo maior cautela de suas ações porém, o que se vê hoje é o extremo oposto.No novo show global onde a democracia é música obrigatória; o Brasil tem cometido alguns erros que tem contribuindo com a quebra da sincronia.O caso Batisti foi apenas um exemplo mas recentemente outros casos de tons semelhantes tem levado a coluna "internacional" para a primeira página dos jornais brasileiros: a deposição; golpista ou não; de Manuel Zelaiya da presidência de Honduras.

Há alguns meses a instituição democrática mundial parou para voltar sua artilharia contra Honduras, onde um presidente devidamente eleito acabará de ser retirado do poder através de uma ação militar nos moldes das operações anti-oposição, realizadas durante o regime militar.Durante a madrugada, Manuel Zelaiya teve seu lar violado e trajado de pijama; assim como toda a família; o presidente foi levado para longe de seu trono.

Roberto Miqueleti; até então presidente da instituição suprema do judiciário hondurenho, correspondente ao STF no Brasil; assumiu a presidência provisória do país e por todo o planeta tambores entoavam um som de protesto em defesa de uma dama chamada Democracia, de nacionalidade grega.Na América Latina, onde estão hospedados as ruínas da esquerda - se é que isso existe - as coisas não foram diferentes e por aqui diversos mandatários convocaram a imprensa de suas respectivas nações para se pronunciar.Dentre eles o "Dono" da Venezuela Hugo Chaves que chegou a cogitar uma ação militar pela devolução de Zelaiya ao poder.

No Brasil o presidente Lula ocupou a tribuna do Planalto para se mostrar um porta bandeiras do ideal democrático.Entre as suas palavras retumbavam dizeres como "o mundo não tolera mais golpes militares" e coisas do ramo...pobre dessa senhora Democracia, tão maculada por estes homens que tanto abusam de sua instituição violada.Na mídia diversos intelectuais eram ouvidos e em todo o planeta ouvia-se renovada a campanha em nome da "justiça".

Enquanto isso era o povo hondurenho quem sofria, como sempre.Nas ruas circulavam veículos de guerra recheados de bonequinhos armados, tão alienados quanto a população desorientada.Pessoas perderam suas vidas enquanto defendiam o que acreditavam ser certo.Hondurenhos matando Hondurenhos, humanos matando humanos e tudo pela sedutora Democracia, uma senhora pela qual; aparentemente; os homens estão dispostos a matar e morrer por sua camuflada existência.

Crescia de forma virulenta o cenário caótico instalado em Honduras e por todo o planeta organismos internacionais realizavam suas reuniões tão inúteis quanto rotineiras e propagandistas.Todos criticavam o golpe que privará Zelaiya de seu poder como presidente eleito, ignorando a verdadeira situação em que se encontrava o país.Manuel Zelaiya desrespeitou a cláusula pétria de sua nação quando convocou um plebiscito onde questionava a população sobre o direito a reeleição, inexistante naquele país.O ato foi considerado ilegal e imediatamente os poderes respectivos se moveram aprovando um processo que aqui no Brasil seria chamado de "impeachment" - cheiro de Collor? - e, imediatamente; Zelaiya deveria deixar o poder.

Até onde vão as informações colhidas aqui fora, Zelaiya mal teria tido tempo para abandonar o comando do país quando; durante a noite; homens de farda invadiram a mansão presidencial colocando em prática o velho método de se aplicar golpes de estado.Logo ele deixará de ser presidente e acompanhado de sua família foi levado para outro país, onde passou a empreender uma campanha de retorno a terra natal da qual Homero deveria ter sido testemunho, para escrever uma nova odisséia.

Analisando friamente a situação política de Honduras, diversos pesquisadores constataram que um clima interno já favorecia a situação extrema em que o país chegou.O presidente Zelaiya veio de uma das seis famílias que controlam o estado hondurenho tradicionalmente e era conhecido por seu conservadorismo, característica que causa surpresa já que hoje ele é um dos atores mais aplaudidos pela esquerda.Sob sua gestão a economia caminhava lado-a-lado com os Estados Unidos agradando aos empreendedores que constituiam a economia do país porém; com um certo tempo de governo; a amizade entre Zelaiya e Chavez teria adquirido contornos preocupantes para a vertente mais ortodoxa do país.A própria Igreja se mostrou contrária ao novo rumo tomado pelo Estado que passou a remar na direção de tratados comerciais liderados pela Venezuela.Essa situação; somada a uma resiginação silenciosa dos militares com relação ao presidente; teria construído a tela perfeita para o desenrolar do filme que até hoje não encontrou um fim, seja ele feliz ou não.

O descontentamento cresceu e escorreu dos setores conservadores com destino ao exército hondurenho que, viria a se tornar o maior instrumento para a consolidação das medidas contrárias a permanência de Zelaiya no poder.Toda a podridão crescente transbordou quando o comando militar do país realizou mudanças na hierarquia das forças armadas, atingindo comandantes ligados a nova oposição que brandiam a bandeira contra o plebiscito que provavelmente; manteria Zelaiya no poder por mais tempo já que a amizade com Chaves havia despertado no presidente hondurenho uma consideração mais intíma pelos pobres do país, erguendo seu potencial eleitoral acima das expectativas.

Merece destaque o fato de que o curto período de convivência com Chaves tenha alterado tanto a genética ideológica de Zelaiya, a ponto do presidente semear um plebiscito cuja colheita tinha projeções otimistas para seu futuro político.Seus apoiadores ainda afirmam que ele é um homem conservador porém seu comportamento mostrou exatamente o contrário para o mundo.Foram várias as tentativas de retornar a sua terra natal e consequentemente ao poder e, nestas investidas inocentes faleceram diante das operações onde o exército hondurenho vetou a entrada de Zelaiya

Abrigado na Costa Rica Zelaiya conseguiu do nobel da paz Oscar Arias; presidente costa-riquenho; o apoio diplomático para negociar seu retorno ao poder porém, do outro lado também reinava a teimosia e a intransigência portanto, acredito que nem mesmo Ghandi conseguiria cansar o novo governo hondurenho; muito menos Arias que é apenas um nobel da paz e não um filósofo que revelou ao mundo o valor das palavras contra a força das armas.

Arias tentou diversos acordos mas nada conseguiu senão a atenção em meio ao cenário global.Postado de forma diferente estava Chaves que continuava ameaçando o estado hondurenho com suas armas recém adquiridas da Rússia, outro exemplo de ruína comunista instalada no “velho mundo” ora, o tráfico carioca que já é capaz de abater helicópteros poderia invadir Honduras e transformá-la em um novo complexo ditatorial.Chaves ainda acha que o mundo é um tabuleiro azul enquanto ele, Rússia e China são os soldadinhos vermelhos.

Passado a fase Oscar Arias Zelaiya saiu de cena e ficou distante das camêras enquanto o filme rodava sem protagonista.Eis que como através de um efeito especial; o presidente sugiu na “Hospedaria diplomática brasileira” em Honduras, sim sua terra natal cujo acesso à ele tinha sido vetado pelos militares.Misteriosamente, um veículo adentrou a garagem da embaixada e lá estava Manuel Zelaiya: uma mistura de Stalone com Sarney, temperada com as idéias de Hugo Chavez.

A partir daí a novela se fechou em torno de um único palco, o que facilitou sua transmissão sem sombra de dúvida.Agora toda a trama estava concentrada na embaixada brasileira, um verdadeiro comitê político se instalou lá junto de Zelaiya e os problemas de infra-estrutura; tão comuns em nosso país; também se mostraram presentes na embaixada, que curioso não?Brasil é Brasil em todo lugar.

No dia seguinte ao feito heróico de Zelaiya, o “Revolucionário Hugo Chaves” convocou a imprensa venezuelana em tom de festa.Em meio a uma série de gargalhada, o presidente bolivariano esmiuçiou a logística empreendida no transporte de Zelaiya com a maior naturalidade possível.Realmente, o presidente Chaves deve adorar jogar WAR.Simulando a operação com direito a mímica e gestos das mais variadas e rídiculas espécies, o mandatário mandão explicou tim tim por tim tim a operação que resultou na hospedagem do colega hondurenho na embaixada brasileira, enquanto do outro lado do pasto o chanceler Celso Amorim reiterava junto de toda a sua assesoria que o Itamarati desconhecia tal operação, ou seja, até fora do país as autoridades brasileiras empregam a filosofia do “não sei e não sabia de nada”, isso é que é ser autêntico.

Zelaiya continua abrigado na embaixada brasileira até hoje e o cansaço já se abateu sobre os fatos em torno do presidente hondurenho.A imprensa já destaca as peripécias do presidente nas ùltimas linhas de suas publicações e o exército hondurenho já colocou bonecos de guarda para vigiar as instalações diplomáticas.Isso tudo após o atual governo ameaçar o Brasil com um ultimato de dez dias, onde o Itamarati deveria definir se Zelaiya era asilado ou refugiado, sendo que em qualquer um dos casos o presidente seria retirado da embaixada e consequentemente trazido para Brasília.A chancelaria brasileira minimizou o ultimato e respondeu com veemência ao declarar que desconsiderava atos de um estado tirano.Zelaiya sobreviveu a esse período e usou a laje da embaixada para promover discursos diretos aos seus apoiadores.

Destaca-se com pouquíssima luz o fato de que uma comissão parlamentar brasileira também se inteirou dos fatos, visitando Honduras após o ultimato do governo provisório se revelar tão ineficaz quanto o previsto pela chancelaria brasileira.A comissão se reuniu com políticos locais e até negociou um encontro com Miqueleti mas o novo pajé não quis saber de indio estrangeiro ditando as regras de sua aldeia.Com a porta fechada os deputados e senadores retornaram ao Brasil.

Hoje a Odisséia de Zelaiya se encontra em capítulos burocráticos, compostos de uma inércia broxante para quem gosta de acompanhar fatos emocionantes.O próprio Hugo Chaves se calou , o que já é um sinal do fracasso previsto para uma situação como tal.O único avanço digno de registro é que o representante direto de Zelaiya nas negociações com o novo governo já não é mais o mesmo.Ao que se sabe a alteração se deu após conselhos recolhidos pelo próprio Zelaiya acerca de seu defensor, que era radical demais.Hoje outra pessoa ergue a bandeira do presidente diante de Miqueleti que se encontra na situação de um time que vence por 1 a 0 seu adversário, segurando o resultado através de uma troca de passes sonolenta no meio de campo.Isso se deve ao fato das eleições presidenciais hondurenhas acontecerem em novembro, ou seja, mesmo que Zelaiya retorne ele se acomodaria no trono por pouco tempo, mal proporcionando ao seu traseiro o reconhecimento do assento.

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