Boa noite.
Depois de narrar mais um fato das crônicas políticas brasileiras, eu me volto para um tema que há muito tem me seduzido a atenção porém, não tenho dedicado o interesse devido por esse assunto.Eis um tema do qual os olhos paulistas não podem fugir: a mobilidade quase imóvel da cidade de São Paulo.Além de testemunhar o ar que você respira, também conta com a exclusividade de praticar os mais exigentes exercícios físicos enquanto caminha ou pedala pelas ruas e calçadas e, se já não bastasse tal dificuldade você também tem de sustentar um sistema de transporte coletivo extremamente voltado para o lucro.
Se agarrando a questão das calçadas inicialmente, utilizo algumas poucas palavras para descrever a situação em que se encontra o calçamento próximo de onde eu moro, nas bordas do extremo sul da capital.Grande parte das calçadas que margeiam as avenidas são construídas com um grau de inclinação que facilite o estacionamento de veículos, essa facilidade não serve aos pedestres que se concentram nos passos para evitar quedas, ainda mais quando se trata de senhoras e senhoritas, pisar sobre ovos é mais seguro.
Outras calçadas vivem um processo erosivo interminável.Aonde um dia foi um ferro-velho, hoje há um terreno abandonado e do outro lado das grades enferrujadas que abrigam um pobre cão, está uma calçada recheada de crateras de todos os níveis, ou seja, não há uma calçada.Passo por ela todos os dias e na caminhada mais recente fui surpreendido por um buraco que no dia anterior me pareceu menor, talvez e causa tenha vindo dos céus através das àguas lançadas pelas nuvens mas, de qualquer forma;a cratera me surpreendeu e por pouco meu tornozelo se desfez em dores.
A dificuldade encontrada para cruzar tais calçadas, nos leva a estabelecer os passos mais próximos da guia e muitas vezes disputamos um pouco de espaço com os carros, já que temos de desviar dos obstáculos maiores aí passam os motoristas, muitos compreendem tal situação e seguem seu caminho, outros buzinam e outros tantos libertam a ira acumulada em horas sobre o asfalto cruel.Nessa semana ora quente, ora chuvosa; os obstáculos se somaram e o cuidado foi maior já que, ao fugir de crateras no calçamento; eu me aproximava das guias recheadas de àgua, por onde os carros passavam em velocidade suficiente para lançar essa mesma àgua sobre mim, ou seja, caminhei zigue zagueando para fugir de tantos problemas.
Eu, que sonho com o dia em que terei coragem de pedalar em meio aos homens que aceleram suas máquinas, tenho lançado minha atenção sobre a convivência entre ciclistas e motoristas e temo pela minha integridade desastrada e desatenta até certo ponto.Os caminhões rugem em aceleradas monstruosas recheadas de intimidação, avançam paralelos a guia ameaçando os ciclistas e muitas vezes a sensação que tenho é que esta ameaça é proposital.Os ônibus entupidos de vidas humanas aceleram atendendo a pressão daqueles que vão desembolsar os atuais 2,70.Se comportam como os caminhoneiros projetando seus veículos de maneira ameaçadora sobre os ciclistas e motoqueiros, e até motoristas quando o stress inunda o bom senso do piloto.
Eu sou um pedestre orgulhoso pois sei que das janelas dos carros os corpos não podem sentir o pulsar da vida urbana, cheia de crueldades e prazeres, amores e desabores...cheia de sentimentos.A cada passo sobre o concreto manchado as sensações se renovam constantemente e você passa a enxergar a cidade de maneira mais profunda, como um ambiente mais vivo e mais próximo de você, não tão inatíngivel como muitas vezes se apresenta para nós.Como disse o Alquimista de Paulo Coelho, para se entender a vida no deserto é preciso entrar em contato com ele, eu não quero entender a vida urbana e seus detalhes tumulares mas, estar em contato com ela já me parece suficiente.
Se você pensou que esse texto abordaria essa questão nos moldes de uma análise urbanística se enganou por duas razões básicas: 1ª Gosto de urbanismo mas pouco poderia falar sobre e 2º este é um relato leigo e sincero da sensação cada vez maior de que, essa cidade; não foi feita para nós mas é preciso que seja nossa e para isso, temos de sair de nossas casinhas confortáveis.
Renato Dias, muitas vezes um Super Mario saltando as crateras, sem a chançe de obter continue ou uma nova vida...
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