sábado, 26 de junho de 2010

"O Admirável Mundo Novo" da Educação Brasileira:

Continuação da segunda parte apenas por conveniência dos leitores: A CONSTRUÇÃO DA MÁQUINA E O PROCESSO DE FORMAÇÃO DE SUAS PEÇAS:





Quando falo da valorização excessiva da formação profissional também abordo; indiretamente; a transformação do ensino superior num bem público para a classe média enquanto para os mais pobres, a entrada nas universidades públicas estaduais e federais se transforma em uma odisséia fatal até mesmo para os heróis das mitologia grega.É evidente que grande parte dos alunos de cursos técnicos vem de famílias pobres ou de classe média baixa, por isso o interesse em tal formação já que o despreparo da escola pública para falar de temas universitários acaba lançando a juventude nestes poços de ensino robótico e monocientífico, se é que tem algo de científico.




As universidades públicas estão muito afastadas de quem realmente merecia um assento nos premiados cursos.A grande maioria dos alunos do sistema público concluem o ensino médio ansiando por um emprego que lhe conceda maiores condições de consumo; o que faz do jovem em parte culpado pelo ensino ténico e pelo ensino superior privado roubar tantas cabeças para seus cofres e para os pavilhões industriais, e por isso desembarcam em instituições privadas que oferecem condições estranhas de pagamento e formação, coisas do tipo: "cursos a partir de não sei quanto" ou "tenha seu diploma em dois anos"; quando a duração do curso é de mais dois anos.




Instrumentos na mão da indústria assim como os cursos técnicos, as universidades privadas primam pela formação do jovem para o mercado de trabalho de seu respectivo curso, o que para muitos é extremamente positivo mas na minha opinião não, é extremamente "produtivo" isso sim.Num país continental de alienação irrestrita o enfileiramento de cerébros e sua destinação para um mercado cada vez mais competitivo, acaba por zerar as nossas expectativas de futuro acerca da educação.Antigamente se formava pessoas críticas capazes de estruturar seus conceitos acerca do mundo, agora proliferamos sistemnas de trabalho diante das lousas que; coincidentemente; se chamam "quadro negro".




Atendendo a demanda crescente por formação superior imediata; germinada em grande parte pelo já mencionado afastamento das universidades públicas do cotidiano escolar; muitos jovens estão perdendo horas de seu sono para conciliar emprego/faculdade, na esperança de que ao fim destes cursos ganhem mais do que suas contas bancárias abrigam agora.Proliferam feito ratos no cenário urbano as instituições privadas e são poucas as que de alguma maneira; valorizam a formação humanista, principalmente nos cursos que exigem esse processo como Jornalismo, História e Ciências Sociais porém, seria importante que num país como o nosso até mesmo os mais curiosos cursos de formação industrial valorizassem um pouco mais temas humanos.Entendo que para muitos discutir filosofia e política é coisa de intelectual; imagem comercializada pela mídia a muito tempo; quando na verdade são temas livres onde devemos exercer o nosso razoável direito de expressão, afinal a educação serve para quê?




Voltando a questão do ensino superior público temos a Universidade de São Paulo como exemplo mais prático de duelo entre a formação privatista e o saber científico; característico da milenar instituição.A escolha recente do reitor João Grandino Rodas; ex diretor da Faculdade de Direito do Lgo. São Francisco; coloca em cheque mais uma vez a autonomia administrativa da instituição.Durante as eleições Rodas surgiu como o nome do Governador José Serra em oposição a coalisão da ex-reitora Sueli Villela; alvo de uma campanha incisiva dos estudantes em nome de sua demissão; representada por Armando Corbani: Professor do Instituto de Física, Ruy Altafim: Professor da Escola de Engenharia de São Carlos e por Glaucius Oliva, diretor do Instituto de Física de São Carlos, tido como o mais bem articulado politicamente e que foi longe na disputa, estranhando; inclusive, a escolha de Rodas.




Rodas foi eleito após um turbulento processo de tentativas de se barrar a eleição. De acordo com uma reportagem da estudante de Jornalismo da universidade; Thais Carrança; publicada na Revista ADUSP nº 46, de janeiro deste ano; 274 eleitores votaram no segundo turno da eleição sendo que 15% deles se abstiveram do direito.Segundo a publicação Glaucius Oliva, nome de Suely para a cadeira; liderou os três escrutínios seguido respectivamente por Rodas e Corbani, ao fim do processo constatou-se poucas mudanças nos resultados e ninguém obteve maioria, de forma que a dita lista triplíce foi enviada para o Palácio dos Bandeirantes que no dia seguinte ao envio decretou: Rodas é o novo reitor da Universidade de São Paulo, divergindo da eleição alternativa democrática que queria Francisco Miraglia no cargo e quebrando a coalisão Villela, representada por Oliva e Corbani.Números da própria revista demonstram que Corbani chegou a ficar a três votos de Rodas, ou seja, 101 a 104.A responsável pela matéria afirma em texto que se Rodas ficasse em terceiro a definição de Serra seria politicamente embaraçosa mas, não impediria a situação que já se vê hoje.


Talvez pareça confusa a abordagem de temas aparentemente tão distintos mas, os temas educacionais estão intrinsecamente ligados entre si de forma que, a quebra proposital da estrutura administrativa/política das universidades públicas, a valorização cada vez maior do ensino superior particular e a inserção cada vez mais precoce dos jovens no mercado de trabalho; através dos estimulos ao ensino técnico; estão transformando a educação num instrumento de aquecimento econômico e não de formação humanista.


Revista adusp (Associação dos Docentes da USP), Nº 46 publicada no mês de janeiro de 2010, manchete "Dossiê: Educação no Brasil".Edição disponível integralmente no site da revista

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