domingo, 13 de março de 2011

Dois copos por favor

Um encontro seguido de abraços, continuado em passos com destino a um pequeno restaurante:
--Lá servem o melhor café da cidade, feito com sentimento, vitalidade - Ela disse cheia de gestos, simplesmente não vivia; interpretava a vida na qual era protagonista; sempre munida de casacos e calças desenterrados de algum brechó empoeirado.
Dois corpos à caminho de um ùnico lugar, recheado de tantos outros possíveis casais cujos pés se destinavam em sincronia para o mesmo destino.Talvez nem todos estivessem juntos ou desejassem estar; acomodados e enroscados sobre alguma cama da cidade; alguns poderiam ser grandes amigos engajados na busca por algumas horas de conversa; possibilidades...todos sabem como é.
Chegaram e lançaram olhos sobre as cadeiras à deriva; largadas em meio àquele mar de seres animados pela bebida.Circulavam bandejas dançantes para todos os lados, eles viam e se alegravam pois com as bandejas, pratos e copos se distribuia um pouco daquela energia vibrante e febril.No canto mais mal iluminado existia uma mesa que pelo fato de ser rústica não tinha a mesma demanda que suas companheiras de profissão. Com ela estavam três cadeiras exiladas pelo mesmo motivo.Seus pés tornaram a se mover com destino e sentido, alcançaram a região mais mal iluminada e se acomodaram ali.
A noite trouxe consigo seu manto estrelado que tranquiliza certos corações alucinados.À todo momento aqueles quatro olhos se encontravam, sincronizando as semelhanças de ambos e demonstrando gradativamente o quanto se queriam.Era a hora de se permitirem amar, ceifarem o enraizado medo que algemava suas vidas.Precisavam se enroscar, se emaranhar...se sentirem.
As mãos dela se ergueram alto sobre as cabeças vizinhas, o garçom entendeu: " Amigo, me traga uma dourada".A cerveja lhe fazia bem e ele sabia mas não pediria tão cedo.Ela sempre agia como bem entendia e se guiava pelo instinto feminino, tão aguçado quanto o de uma leoa.Não se importava com olhares alheios que sempre alimentavam certos julgamentos de seus modos extravagantes e sinceros.Era ela mesma, a própria encarnação do seu espírito radiante e louco, pronto para desfrutar essa vida até a ùltima gota de seu suco mais precioso.
Algumas garrafas depois e lá estava o mais magnífico sorriso feminino já solto sobre a face desta terra.Um sorriso amarelado pelo cigarro e pelos copos de café engolidos às pressas durante o dia corrido.Um sorriso majestoso pela simplicidade, pela autêntica manifestação sincera do quanto transbordava sua alma.Ele estava embriagado mas não pela cerveja; sim pela beldade mortal estacionada diante dele em seu estágio mais mundano: bebâda.
Ninguém se importaria com uma história como essa que até então, tem as cores de um conto de amor mas, ela bem que gostaria de ler algo assim dia desses.Idolatrava retratos escritos do cotidiano que foge à luz das camêras.Gostava da clandestinidade artística, do submundo efervescente e criativo que dava vida à vida por amor, sem esperar de seus admiradores nada senão reconhecimento, breve e sincero.Foi por tanto amar as coisas em seu mais simples estágio que conheceu aquele rapaz, embasbacado e hipnotizado por sua dentição cafeinada.Ela não se importou de início quando recebeu timídas olhadinhas do garoto, agiu com indiferença até flagrá-lo lendo Bukowski ao ar livre; debruçado sobre a grama de um parque qualquer.Nasceu aí o que ela não soube classificar nem saberá jamais, mesmo quando disser que-o ama pois quem pode saber tanto sobre a vida enquanto vivo está?Tentar entender a força que nos nutre é perda de tempo, maior é o prazer sentido com o inesperado.
Em algum aparelho de som tocava Roy Orbinson, alwais singing for the lonely's mas desta vez Bruce se enganou.Ali estavam dois corações, duas mentes, dois corpos, um pênis e uma vagina que se desejavam à sua forma cada pois entendiam que todo o universo se contraía em favor do inevitável encontro, sobre uma cama qualquer de uma cidade qualquer, mal iluminada e perigosa ao seu mais encantador modo.

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