terça-feira, 3 de julho de 2012

Fantásmico

Às vezes quero acreditar que realmente somos os autores de nossas próprias vidas. Me apego a slogans publicitários que trabalham por convencer a consumir o que desejo, resumindo a esse gesto trivial a maior manifestação de liberdade da qual um homem é capaz. Caramba, do que me serve a razão então? Será ela a monarca cuja tirania reina dos meus cabelos às unhas do pé? De repente tudo tão diferente, vira-se um continente e toda a humanidade escorre para dentro do mar. De repente meu mundo passa a ser outro.

É muito difícil acostumar os olhos com a ausência de uma flor com a qual despertou diariamente. Parece que os dias nasciam ensolarados para ela e agora toda a palidez convicta se faz perene, enraizada na tristeza que me abate quando tomo conta do quanto o meu mundo envelheceu. Não são os pêlos que se penduram pelo queixo ou pelas laterais da face e nem mesmo a sua falta me traria sensação contrária. Tudo se transforma sem anunciar motivo e parece que há de ser mais violenta ainda a transformação que se avizinha, posso vê-la da janela sem flor e contra a qual chocam-se os ventos que um dia me foram gentis.

Poderiam as forças que sopram as marés geladas contra a minha janela, trazer um castigo. Quem sabe um golpe de misericórdia tão celére cujo desfecho se furtaria da humanidade. Partir feito tantos outros que se convertem num vazio inperceptível em meio à massa. Talvez assim encontrasse nos bastidores um script, algo que me convença da utilidade que talvez tenha ou da inutilidade da qual estou sempre certo. Me enganem entao e procurem pela retórica afiada me convencer de que não sou o culpado, ou mesmo sou e do contrário indiquem ante os meus olhos marejados quem tramou tudo isso, contra quem devo brandir o grito animalesco que vai ganhando sua forma disforme dentro de mim. A quem devo partir no desfile de uma lâmina da ira cega?

Poucas sensações afligem mais do que aquela que faz de ti uma peça nas mãos de alguma substância invisivel. De repente parece que não temos controle de nossas vidas e estamos todos num grande mar, ao sabor dos delírios dos céus que sopram de cá para lá lançando alguns contra a rocha e outros à maciez da terra firme. Eu me sinto abatido em pedaços esparramados sobre as pedras mais afiadas de todo o oceano. Cuspido sobre o corpo mais alto das cordilheiras oceânicas, sem forças para se recompor e nem mesmo posso assistir aos destinos que se rasgam diante de mim, a vida dói.

Por Renato Dias de Sousa, bem de repente.

Relatos da fuga sem caminho

Deitou os olhos no misto profano de corpos que se distribuiam lá embaixo nas passadas longas e curtas, acotovelando-se às margens do rio asfáltico pelo qual corriam os carros. Jeito simples semeado pela terra nos campos do espírito, não encontrava paz naquela desarmonia metálica, matava-lhe os ouvidos. O homem do qual veio sempre falará mal da cidade, dos prédios e das pessoas e fará lenda quando falou dos passáros, dizendo que de lá eles fugiam mas ele não fez crença, entregou-se à estrada pois as terras antes livres pra depois do horizonte agora eram outras, extensas posses de poucos homens. Quanto aos passáros forá verdade a feita do pai, ao não ser que sejam ele e tantos outros bichos voadores engaiolados por trás das janelas dos apartamentos, sendo quem sabe os prédios grandes árvores de alvenaria, cujas raízes maculavam o seio da terra. Precisava fugir mas nem mais a imensidão do mundo desenhado nos mapas parecia suficiente. Tudo nessa terra se converte em posse e não falta quem queira ter mais do que as duas mãos podem segurar.

Por Renato Dias de Sousa.

Transporte-me nas presas

Os teus olhos assisto enquanto devoras-me

Mastiga parte por parte em rosnados de fome

Explora-me por inteiro feito um cão que fareja o cio

Caça-me na selva de lençóis emaranhando meu corpo no teu

O que tanto persegue com as presas cravadas em mim?

Sinto-lhe chovendo sobre meu caldeirão fervente

Na névoa ascendente perco-me nas viagens em que me leva

Para tão longe que a superfície se mostra rara

E só me reconheço diante do teu suspiro cantado

Anunciando o delírio da madrugada.

Renato Dias de Sousa, tudo o que um dia será um livro.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A aurora externa ao casulo

O corpo se lança sobre a cama, a mente mergulha nas profundezas do travesseiro. Da janela em diante uma noite de céu vazio, a humanidade concretada já não interessa mais às estrelas.

Mil pensamentos me abatem e assaltam a condição sonolenta que me encaminhará àquele estado. Mares degladiam-se dentro de mim, tempestades despencam sobre meu intímo e já não reconheço minha própria forma. As nuvens negras que desfilam no céu tumular refletem meu mundo estendido sobre os lençóis, não quero me levantar, não quero reagir, meus oceanos transbordam com maremotos que ascendem aos olhos e sinto um desejo nuclear de explodir, explodir em silêncio, em segredo.

Quando me enviarem à imortal prestação de contas perante o crivo do Grande Construtor, hei de fazê-lo ouvir todas as minhas queixas diretas à falsa perfeição com que erguerá sua obra. Em toda a sua experiência de Senhor do Universo como poderia plantar em sua maior realização seres tão complexos? Espero que ele não me venha com desculpas ou justificativas celestiais, que me envie logo às profundezas e silencie em mim todos estes questionamentos. Talvez sua arrogância elevada à potência divina jamais admita o fracasso na construção dos homens, faltou um botão para ejetar e disparar do corpo rumo à imensidão eterna, sem necessidade de explicação. Explodir e se dividir em milhões de pedaços essenciais à se esparramar pelo mundo, nas velhas tempestades.

A embriaguez foi uma invenção mundana especial pois poucos remédios ceifam as raízes humanas. As garrafas vazias inundam a alma de uma liberdade para "ser" que rompe as portas e grades do bom senso, aí eclode o verdadeiro homem em lágrimas ou sorrisos, a sinceridade sem cêra. A sanidade ludibria, sepulta e submerge o verdadeiro homem dentro de padrões que nas profundezas do ser perfuram-no aos poucos, fazendo com que ele sangre, sangre, sangre e então é o sangue quem aspira à superfície e contra ele não há obstáculo páreo, de forma tal que repentinamente tudo desaba e a vida parece vazio; um vazio suportado por décadas que mais parecem séculos e no reflexo de vidro saltam marcas, sentenças e fissuras de tristeza e um desejo brota para nem tão cedo se quebrar: o desejo de partir.

Caramba! Eu queria explodir, eu realmente queria explodir e me preencher da sensação de abraçar o mundo aos pedaços, de ser ao mesmo tantos de tão pouco. Aguardaria por dias secos que fariam das nuvens baús fartos de umidade, prontos para chorar e chorar inundando a dor dos homens e então, eu acionaria dentro de mim a própria bomba carregada no peito, ela que me distribui a vida individual se partiria em porções múltiplas transportadas pelos ventos até os céus e de lá; com a primeira grande tempestade; eu gostaria de despencar sobre a humanidade...eu gostaria de chover sobre a humanidade.

Ferir dói...

"Frutos do mundo, somos os homens"

Renato Dias de Sousa, terrorista de si mesmo

O CÉU NAS POÇAS DA CIDADE


Caminhar a noite pela cidade chuvosa pode adquirir contornos mágicos. Moram nas poças tingidas sortilégios mil, destes que acorrentam os olhos. Os passos avançam lentamente sem querer ir embora, sem querer seguir talvez mas como vai um corpo que não deseja? Quem está no controle quando não se quer aquilo que se faz, mas que contrariedade violenta e complexa esta que emerge sob a sola dos pés, o lençol da vida se estende e desdobra.

Nas poças filhas da chuva reside o reflexo dourado dos postes de luz, tão poucos acesos já foram o suficientes para abrilhantar a rua, tradicionalmente invísivel tamanha penumbra que em torno dela se levanta, guardando-a dos nossos olhos. Meus pés parecem dançar sozinhos, parecem contentes por saborearem mais uma vez a rua, o asfalto temperado de céu.

Não penetram em meus ouvidos o som dos disparos distantes, em algum lugar algum revólver cuspiu fogo mas sob a determinação de algum dedo, somente um movimento humano poderia quem sabe engatilhar o consequente fim do outro. Foram vários, ouvi cada um pela metade para que não se cravassem em mim feito parte da memória de um domingo chuvoso, que não sejam as gotas dominicais parte de um cenário mortal na segunda feira, por favor, que não seja uma noite cuja chuva lave as madeixas de mães chorosas, saudosas de vidas que partem nos delírios periféricos.

Cruzo o portão, aproximam-se cada vez mais as paredes de meu lar. Será mesmo um lar ou aqui fora está meu reino? Com sua extensão sem fim e cuja única fronteira é meu medo. Pareço pensativo, não sei bem e não me atrevi lançar os olhos no reflexo que se desenha na porta envidraçada. Sei bem que não preciso saber de mim, não preciso olhar quem sou. Quero apenas me carregar e arrancar da vida versos, extrair dos cantos algo vivo e pulsante, algo...

A vida é realmente fantástica quando tem ruas molhadas, com suas poças espelhos e baús guardando a luz que vem dos postes e da lua. Terá o asfalto negro inveja do céu profundo de noite universal?

Bem queria o asfalto que os carros fossem estrelas, o céu também.


"Mesmo se as estrelas começassem à cair e nos queimasse tudo ao redor, e fosse o fim chegando cedo e você visse o nosso corpo em chamas"

Renato Dias de Sousa, tentando extrair dos dias um pouco de vida e da vida mais dias vivos.

domingo, 13 de maio de 2012

A Geografia dos Medos

 Perceber a cidade pode parecer simples demais como se bastasse deitar os olhos sobre toda a sua riqueza morta. Com seus prédios e ruas estreitas, tomadas por carros, a cidade nos abraça e veda sem que possamos desnudá-la e assim expor o quanto seu concreto é crú. 

 Perceber a cidade é senti-la sob os pés a cada passo, apalpar teus muros e poucas plantas num desejo ardente de compreensão. Tocá-la como quem percorre um corpo nu nas pontas dos dedos, atiçando a fome ali guardada, estudando suas contradições. Os olhos não bastam senão para convidar à aproximação, fundar na terra de alvenaria raízes que subvertam a geografia do desespero, que cada vez mais afugenta as pessoas do ambiente público para interná-las no seio do privado, aninhá-las do ambiente de convívio para mantê-las sob controle no intimidade do lar tão preservado.

 Quando teus olhos percorrem uma série de sobrados comerciais sitiados por grandes edifícios o que pensar? Um olhar descuidado ou quem sabe vazio de sensibilidade, não enxergaria nada além do exposto, nada além do que querem lhe mostrar. Distintos são os olhos perspicazes dos famintos, cujo foco perfura e se aprofunda; cava e prospecta o verdadeiro sentido do mecanismo urbano. A cidade se desenvolve e se renova engolindo o próprio espaço, uma autofagia antropofágica seguida de uma reciclagem orientada pela lógica capitalista. A produção do urbano se orienta cada vez mais para a transformação num sentido potencialmente administrativo, em que bairros inteiros tem sua função residencial deletada da superfície, toma seu lugar uma outra vocação: a dos altos prédios tomados por janelas.

 A especulação imobiliária (ou socialização contraditória como diz Marx) conta com uma permissividade de um Estado quase cego, que se vê sem muitas opções diante do direcionamento dos investimentos públicos no espaço urbano. As ações de reurbanização nas quais se argumenta uma busca pela recuperação do espaço, muitas vezes tem na verdade um espírito pautado pelo privado se beneficiando do público. Projetos como os da "Nova luz" e como a recuperação do Largo da Batata parecem orientados para esse fim, quebra-se uma lógica presente para se injetar uma nova orientada pelas relações de capital.

 Quem cruza o Largo da Batata no coração do bairro de Pinheiros, nota que em torno dos pontos de ônibus centrados na extensa praça concretada, desenvolve-se uma famigerada inversão da lógica micro-comercial da região. Os botecos e pequenas casas de show estão sendo aos poucos expurgados pelas incorporadoras e construtoras, que estendem o sentido administrativo de prédios de escritório; característica da avenida Faria Lima; para lá. Do ponto de ônibus tem-se a sensação de que os prédios são plantados como que cercando a região, uma noção aterradora do espaço público como espaço democrático de coletividade.

 Não faço destas palavras as expressões de um pensamento urbanista técnico. O texto de uma ponta a outra é a simples transposição de uma série de reflexões para palavras ordenadas, ou quem sabe desordenadas mesmo, fruto de um pensamento caótico. A cidade está me assustando quando cresce verticalmente eliminando cada vez mais o público, projetando ambientes que isolam as pessoas dentro dos muros, fortificações de espírito feudal que reúnem as principais necessidades humanas que nos levam a ter contato uns com os outros. Eis a Geografia do Desespero, aquela que preza por um espaço cada vez mais restrito e elitizado em detrimento da coletividade, da convivência e do bem estar. 

 "Em breve, menos sol e mais concreto"

Renato Dias de Sousa, um simples graduando de Geografia.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Poupem-me de mim

Os mapas mostram o mundo em sua imensidão plana e vazia, artificialmente colorida tantas vezes conforme a participação humana em sua elaboração. Abre-se um atlas e tem-se diante dos olhos o mundo colonizado, centrado no atlântico cujas àguas renderam tanto aos exploradores europeus. Para se localizar basta deitar os olhos e descer, descer até se alcançar a porção dos desgraçados, a região dos controlados sobre os quais por tanto tempo se debruçou a ingerência externa, aonde agora reina a falsa ideia do desenvolvimento ágil e livre de consequências, a revolução que comercializam na tv quando mostram que deixamos de ser terceiro mundo para galgar o G-20 dos emergentes, sobreviventes em meio ao caos da economia global prostituida.
Enquanto isso nos bares redescubro mil histórias de homens vindos das obras, os filhos do desenvolvimento voador, do solo em que se planta obras de concreto. A alvenaria roubando vidas que se internam nos botecos e passam madrugadas inteiras, bebendo e brigando, brigando e bebendo. De vez em quando algum explode de vez e se arma de uma cadeira, tenta quebrá-la nas costas de outro que de tão bebâdo tem nos passos o maior dos obstáculos e você cruza esse cenário, tem de sobreviver à ele e se não conseguir desista: o mundo não é para você.
Os intelectuais isolam-se disso e constroem ninhos de celulose em escritórios insalubres. De lá elaboram milhares de explicações muitas vezes válidas para o fenomêno da construção cívil, um dos setores expoentes do atual momento vivido pelo país. A construção cívil que gera emprego e orienta a corrida econômica, arrastando multidões do nordeste e do norte para todas as porções do país enredadas pela copa do mundo, que bate à porta triunfal clamando pelos ufanistas.
A qualificação técnica produz fileiras de mão de obra digna do século XXI. São homens e mulheres preparados para manobrar as máquinas por longas horas de seu dia, suas vidas se resumem à isso e por fim entregam-se aos mesmos bares, às mesmas bebidas. Já se elaboram pesquisas nos mesmos escritórios insalubres dos intelectuais de torres de papéis, estudos que mostram o quanto as mesas de botequim tem sido financiadas pela mão de obra qualificada do novo Brasil, o país da democracia racial e a classe média de ponta a ponta da nação equidistante...a nação do faz me rir, ou devo dizer Estado? Talvez ainda não exista uma nação no coração atlântico oriental da américa do Sul.
Talvez seja esse o melhor caminho, que de segunda às sextas destruam-se os operários desconstruidos nas construções por aí espalhadas aos montes. Sejam eles as bases de um país que procura se desenvolver sem ver quem vem embaixo, sem conhecer a própria sombra. Cria-se diferentes contextos sócio-econômicos nos intímos da falida soberania para se estimular os fluxos de sonhos, a busca pelos oásis da classe média que cresce e ganha força na definição dos rumos do país.
Enquanto isso, nos bares e nos lares homens se embriagam cobertos de cal, misturam-se ao concreto das obras que tomam os direitos de habitação dos mais pobres. Sobre a guia estendem-se seus corpos curvados pela embriaguez, o organismo rejeita o entorpecimento pagão e gosmento que transborda e se precipta, a mais pura e sincera manifestação de repugnância.
Mas amanhece e o sol vem limpar as marcas sujas das noites nuas e cruas em que se revelam as chagas da nova sociedade, a classe média que encobre a própria merda para ocupar as colunas sociais.

 Renato Dias, venenoso.

Alvejando as pequenices da vida:

A humanidade tem lá suas complexidades idiotas, digo isso porque determinadas complexidades parecem crises de intelectuais quando na verdade não passam de babaquices mundanas. Homens e mulheres redigem extensas pesquisas traduzidas em centenas de páginas recheadas de letrinhas. São tantas que a maioria dos olhos cansados não se interessam por lê-las, começando pelos títulos que de tão extensos já consomem a energia mental. Inclusive, os títulos cansativos são um tentativa de ostentar intelectualidade.

Engraçado quando algum problemático qualquer procura nas paginas explicar coisas práticas, como por exemplo: os motivos que levam as pessoas à se lançarem dos mais altos andares dos prédios. Levando-se em conta a especulação imobiliária com sua insana plantação de edíficios por todos os cantos da louca cidade, tende à cresçer o número de desesperados que procuram num mergulho sobre o asfalto silenciar todos os apertos comuns à espécie.

Esses livros de auto-ajuda são os primeiros à apontar que você é sim um problemático. Se na noite anterior você e sua amada companheira não tiveram uma boa conexão o livro lhe dirá: "problema tal". Se ao despertar enfiou a testa no batente da porta do quarto o livro dirá que seu problema é ainda maior, ou seja, fodam-se eles com sua eterna busca por justificar nossa inperfeição.

Pessoas chovem dos andares mais alto porque simplesmente se cansam, resumidamente posso apelar às minhas liberdades e dizer isso. O suicídio deveria ser um direito constitucional, o que não mudaria em nada a situação atual das coisas. Da mesma forma que um homem procura a felicidade também desenvolve meios de escapar de suas infelicidades, quer outro melhor do que se espatifar sobre a calçada?

Somos uma espécie dificil com ares de auto suficientes, uma loucura só. A maior invenção divina mal consegue subsistir. A morte foi uma grande sacada universal pois tem como função por fim ao grande cansaço da vida. Quando se chega à casa da oitava década não se quer mais despertar para assistir à redução da vitalidade. Cícero foi um grande mentiroso, o homem resolve sua vida nos bares e sobre as mesas, esvaziando copos e garrafas...apontando o dedo para o céu e chamando ao criador para lhe dizer "que grande bosta a sua obra".

Renato Dias de Sousa, num dia exaustivo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Varau

O sussuro angelical cantou aos meus ouvidos tua chegada com a chuva de outono que trouxe do céu as estrelas que via do quintal.
 E num sopro só o vento acertou as folhas de minha janela levando-as noite afora para tão longe que de quando em vez vejo ainda um pouco mal seus saltos sobre as nuvens do horizonte.
 O sol há de vir imponente banhar de ouro a relva do novo dia sobre a qual escorrerá de corpo e alma para abraçar todo o mundo teu não meu diga-me como deito-me do teu lado.
 Tão bela vestida de azul esverdeado dos mais amarelos tons de dias de primavera como pode resistir á palidez com que os céus tentam tomar o dia?
 A tirania celeste que sobre mim recrudesce diante de ti decresce sem entender o porque mas se desfaz em sorrisos de boba criança e vejo de longe.
 Nos teus passos e saltos boto versos tão meus que não ficam só quicam e desaparecem se enterram quem sabem soterras com tua autonomia tão incompreendido bem querer?
 Se temes a posse trago dos fundos a liberdade de não carregar em ti nome nenhum senão o meu nos teus pensamentos de amor e nada mais.
 Mas se não desejar e se considerar-me tão mal de intentar colonizar teu telhado dançante e esvoaçante que parece vivo peço que reveja.
 Abra teu coração pois teus olhos tingidos de mel não permitem vê-la nada tão puro quanto meu desejo de elegê-la senhora do meu peito vazio e desordenado.
 Somente venha e faça do meu teu varal para pendurar sobre ele os vários trapos de teu mundo colorido...

Bela

Traço no teu braço os caminhos que carregam meus olhos sobre tua pele

Neles guardo mil palavras que costurei em seu nome no segredo das noites de outono

nas quais dancei com sua lembrança nos salões de seu reinado em meus pensamentos

Como podem teus sorrisos hemisféricos sequestrarem minha atenção?

Quais sortilégios estão sob o véu de perfeição que encobre teus olhos de jaboticaba?

Já não sei se amo mas algo em ti me torna bobo

me reduz à um simples desajeito natural

Não encontro nas ideias que tomou de mim qualquer

frase para impressioná-la e quem sabe plantar meu amor em teu peito.

Ah, se não fossem os românticos meros produtos do passado...

Por toda tarde flagro meu espirito vigiando teus repousos de exaustão sobre a cadeira

Tu não cabes mas insiste e logo dobra-se todo o corpo perfeito

e repousa

de forma tão leve que ouço teu coração cantar lá no fundo

em batidas lentas e melodiosas

que eu adoraria entoar.

Rápido demais

E se fosse toda aquela velocidade sem destino um simples capítulo qualquer sem significado algum? A humanidade jamais saberia que em uma determinada noite de Abril dois jovens rasgaram a penumbra gelada em uma máquina de combustão infernal, cuja agilidade sobre o asfalto parecia distorcer a realidade arrastando as cores dos postes e placas num arco íris de garranchos metálicos.Ninguém jamais saberia senão eles e quem sabe somente seus corações, as caixas registradoras de suas vidas que na próxima curva poderia ser rompida no abraço selvagem de um poste ou quem sabe de uma árvore, mas mora na verdade a mentira de que ninguém precisaria saber.Dois números a menos que logo seriam substituidos, outros quem sabe mais normais assumiriam os postos deixados por suas sombras.Carrascos dos próprios medos à desbravar no seio da estrada as trincheiras da vida, apostando alto nas doses de embriaguez trazidas das curvas sem fim.Poderiam ter feito muito e ainda sim seria pouco, tudo tão pouco e tão breve que nem mesmo as mais belas palavras poderiam mascarar.A cidade-os cospe com sua língua de asfalto salpicada do sangue urbano, dois indigestos expulsos de seu organismo entorpecido e irracional.Dos lados vidas marginais correndo ou não nos sentidos contrários construindo casas de areia aos olhos das nuvens que disseram ser de algodão doce.A realidade é tão salgada quanto hipertensa e com o tempo não mata mas arranca aos poucos a vitalidade e a humanidade.Os homens se esquecem do quanto são imperfeitos e se cansam de redescobrir que na perfeição só mora a sanidade duvidosa dos solitários e tristes, pois pelos esgotos do mundo escorrem sem norte aqueles que se cansaram e não esperam dos céus nada senão chuva para que se afoguem na mais concreta e pura demonstração de divindade.

Renato Dias de Sousa

domingo, 11 de março de 2012

Faça chover

Quando a noite engole a cidade ela abandona seu ninho de concreto, parte em busca dos pedaços guardados nas ruas.Os olhos cujas lágrimas borraram os traços de maquiagem, mal percebem o caminho de prata à frente traçado pela lua, sua única testemunha.A sombra se arrasta pelas paredes e perdem-se sobre a calçada seus passos incertos.Os bolsos andavam tão leves e vazios quanto seu estomâgo e neles residia um abismo de solidão, tão abrupto e escarpado como aquele que carregava sob os seios consumados.Precisava...

O cheiro de combústivel queimado ao longo de todo um dia se instalou em seu nariz, sentia o corpo coberto de uma foligem urbana, algo que-a devorava de fora pra dentro, talvez as seringas e os monstros que com ela plantava em si mesma mas era tarde, o mundo-a condenará em nome de Deus e com seus vícios e pecados as portas do paraíso jamais se abririam.

Sentiu que aquela caminhada-a levaria para o horizonte e ainda além, algo que rompesse os limites universais e transcendesse a razão.A garrafa se esvaziou e com traços de uma vitalidade quase perdida lançou-na longe, para que explodisse contra o muro e seus pedaços chovessem brilhantes sobre o asfalto úmido da noite virgem.Desejou ser como aquele objeto que lançado contra o concreto se partiria tão violentamente e depois disso se espalharia pela terra, premiando a selva de prédios com partes de sua vida, divididas sem perder a grandeza.

Lembrou-se de tudo que um dia jurou real, tudo o que havia aquecido seu coração e tomado seus pensamentos.Há muito tempo quando viva desejou e amou alguém, aninhou um completo desconhecido em seu peito e arranjou para ele um comôdo inteiro em sua vida, dividiu cada porção de sua existênca, mas agora tudo isso parecia surreal demais, uma projeção costurada pelos teus dedos fragéis ou quem sabe uma história de consolo para amenizar a onipresente sensação do fim.

Seu desejo de alcançar uma distância proibida aos teus passos a levou ao topo de um edíficio.De lá observou a lua mais uma vez, tão majestosa e imponente e com as mãos se despiu em prata e pareciam uma fruto da outra.A cada peça arrancada brotava uma lágrima que escorria, cruzava o esboço do ùltimo sorriso mortal e lavava teu corpo esculpido em uma noite de inverno, frio e brilhante mas fatalmente belo e delicado.As roupas no chão e com elas todas as inverdades e dores, os medos estavam todos ali deixados sobre o concreto.Sentiu alguem dizer-lhe ao pé dos ouvidos que nunca ouviu palavras de amor: "Faça chover", e ninguem jamais entendeu a tempestade que açoitou as janelas naquela madrugada,ninguem sabia.

Renato Dias de Sousa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Jure.

Tão intensos o que me causas que mal posso colar palavras para descrevê-lo.
Quando sorri leva com os lábios toda minha graça para longe, perco-me todo e não encontro na terra firme raiz fecunda para sustentar-me.
Quem és para me ter assim de forma tão pura?
O que abriga neste corpo de forma tal que-a desejo sem fome?

Vou me recolhendo aos teus pés,colhendo pedaços mil para construir o que sou aos teus olhos.
Quando-a vejo com tua pele de nuvens coberta num jardim sem fim de flores belas, só posso pendurar em meu rosto rude e ferido um sorriso, seguido dos meus braços abertos prontos para receber toda sua dor.
Dor de peito aberto num mundo tão senil.

Venha cá venha, sente-se aqui ao meu lado e mire as estrelas que refletem teus olhos lá no céu escuro.
Seus medos nada são agora senão sobras do seu passado de grandiosidade enclausurada.
A partir de agora és livre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Liberto-me

Quem me dera ter o dom de pescar palavras aqui dentro, capturá-las nos céus nebulosos deste pensamento tão tempestuoso e arrastá-las em segurança até a primavera de meu peito, aonde guardo cada gesto teu em segredo e desvelo, para que jamais permita a vida registrar nestes olhos as lágrimas dos teus.

Não fui talhado em jeito de amor e prosa, meu vocabulário é uma selva densa de alvenaria emaranhada, prédios apontados para a alma aonde estão sepultados todos os meus eus, pois não sou um único feito de uma essencia ímpar.

Perturba-me a honra de estar nos pensamentos de outro ser, individual e único repleto de dilemas.Meus gestos se perdem e minha orientação restrita torna-se ausente, deixo-me a deriva num oceano bravio de ondas que saltam e giram,engolem e levam pra longe. Então, me devolvo a superfície e me vejo tão pequeno, insignificante e sonhador.Tão nada que empreendo todo meu ser em coisas que somem na imensidão calada, então mergulho no reflexo que o espelho me oferece todas as manhâs e questiono: quais os motivos que me fizeram assim? Poderia abrir a janela e num grito exaurir minha alma cativa num gesto de liberdade mas, gestos são mais representativos do que manifestações concretas do que se deseja verdadeiramente ser ou fazer, então de nada adiantaria berrar feito um Livre se disso nada sei, senão que estou tão longe de sê-lo.

Mas acima de tudo, o importante é estar aqui diante de mim e assim testemunhar quem sou, e vislumbrar nas brechas do futuro o que estou construindo agora.

Eu.

Árido.

A Raínha da aridez perderá a majestade, toda sua divindade se dezfez em pó e mortandade.Envolvida em véus e trapos, estava ali seu mausoléu aos pés ressecados de uma matula qualquer, coletivo de carniceiros trazidos do horizonte além para embriagar-se da dor alheia.

Nos lábios estavam cravadas nas fissuras as histórias de outras mil criaturas, todas mudas quase mulas deixadas ao como querer o sol.Sujeito ardente se apresentava de um canto a outro abrilhantando a urubuzada.Tingia de ouro o que de valor mal possuia, ditava o traje da festança e incendiava o pouco que restava de esperança.

Sob o teto de palha erguido, abaixo das frestas e outras brechas, fazia-se grande reza em celebração à criatura.Nobre dama das curvas podadas quase nulas, ao tempo brochará feito flor para logo em tão pouco se perder em dor.De quando em quando um berrava, noutro canto havia quem com a fé trocava tapas, lá no meio estavam as moçoilas esvaziando-se aos prantos teatrais e no centro, num silêncio de morte; o esposo, o amado viúvo.

O moço não falava e só quem do casal andava próximo conhecia a relação, muitos outros atraídos de longe pelo fedor da morte desconheciam o companheiro da moça, e consideravam-na meretirz de alto valor ou quem sabe uma divindade que abandonará os prazeres da vida, em troca de uma vida santa e ali mesmo, no ritual de passagem entre a existência e a inexistência discutiam suas formas consumidas pela morte.

Não vieram flores pois nas redondezas plantas de muitas cores não se via, a tirana aridez não tolerava o desafio de sua autoridade permeável.As lembranças da falecida vinham em forma de palavras, mentiras desmedidas projetadas pelas damas locais, as mesmas que invejavam a beleza arrastada pela Morte.

Veio a ùltima hora e vieram os parentes com uma caixa de madeira, seu lar eterno esperava.O marido não moveu nem sombrancelha ou pensamento, permitiu-se ficar acomodado no mesmo canto, abraçando o vazio deixado por quem ia.Perderá a guerra com a Morte, o exército inimigo avançará sobre sua paliçada e num golpe invisível devastou todos os seus amores.Ele ficou, estátua perene e vazia cuja imortalidade se restringia a viver a dor, com a intensidade de quem é apunhalado todos os dias, cada vez mais fundo e cada vez mais privado do fim...estava derrotado.

Quando a marcha cruzou a porta tudo deixou de existir aos olhos do homem calado.Suas mãos castigadas pela vida se abriram feito uma tela diante de sua fronte suada.Assistiu a si mesmo, a ruína de seus propósitos e o declínio dos próprios sonhos.O Sol lá de fora queimava a terra e sobre ela ardiam as almas destinadas ao subsolo; ao submundo dos condenados sem razão.Por onde andará Deus?Será que partiu para tão longe que de lá sua majestade sem fim tornava-se inútil?Ou se cansará daquela terra imensamente podre e vâ, talvez obsoleta e desnecessária aos seus designios divinos?Mais uma vez seu corpo se virou para o mundo lá fora e sua imensidão reduzida aos contornos daquela janela velha, lembrou-se do que sua mãe certa vez falou quando sobre a mesa faltava o básico: "A terra tudo nos fornece de boa vontade, mas quando sobre ela o homem não se faz digno a mesma terra-o toma a vida, e de mãos dadas com a morte sentencia teu fim para sempre".Aquelas palavras somaram-se a outros tantos pensamentos que iam de um lado a outro da sua mente, e ricocheteavam voltando e partindo e voltando e, lentamente; começou a surgir uma ideia embrionária, algo que cintilava no vazio de quem teve seu interior devorado..um ùltimo propósito vital.

A mãe perderá para o mundo e o pai idem, ele permaneceu e brandiu a causa paterna.Arranjará um amor certa vez, ao pé de uma àrvore jurou ter visto o mais belo de todos os frutos da terra.Aquele corpo que transformava em ginga o canto do acordeon parecia um presente, uma fruta que caiu vestida em flores e com os cabelos tingidos de noite quente, aonde os olhos eram as mais exibidas estrelas de todo o universo.Ah, naquele corpo edificado em perfeição viu toda a sua vida correr feliz, mas feito as palavras da mãe a terra tomou, primeiro o filho que mal teve tempo de provar o calor do mundo e suas injustiças; de tão cedo que foi.Depois e agora quem ia porta afora era o seu amor, prometida à terra quente e aos seus corredores ocultos.Sua causa parecia perdida.

O pequeno grão de ideia que germinará ganhou forma e força.Cresçeu vigorosamente em questão de segundos dentro do vazio fértil do pobre homem.Logo todo o seu corpo se contorceu e se preencheu de uma ùnica razão: vingança, e o alvo era fácil pois andava às próximas de seu caçador, não precisaria de muito para apanhá-lo sem piedade.Era a Morte quem o homem desejava e sobre o guarda-roupa pescou o passaporte de sua viagem se volta.Oito balas mas uma lhe bastava, pretendia preservar as outras sete para sete juras de ira e fogo.Faria com que sua vitíma pagasse, antes que levassem para longe seu amor todos puderam ouvir um estampido, o som de um ponto final, o ùltimo ato e seus telespectadores já sabiam tão bem dos rumos daquela peça que nem esperaram pela queda das cortinas, seguiram em frente para logo mais recolher seu ator, deixado sobre o palco mais uma vez e sua causa se desfez novamente em fracasso, para ele e tantos outros não passou de um devaneio.Certa vez dirá o pai, afogado em lágrimas; que sobreviver parecia uma ousadia e aos homens restava tornar tal atrevimento uma causa, a mesma que levará ambos para debaixo da terra.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pinheirinho: terrorismo instituicional.

Admiráveis leitores, não posso em tão poucas linhas condensar a repugnância que se abate sobre mim, sobre minha humanidade; toma de assalto a fonte do meu ser e acende meu inssurecto interior.Estou inquieto e minha consciência ferve,meu corpo pede ação, meu espírito exige que eu faça algo e estou plenamente disposto a fazer, pois como cantou o Chico Science: "eu me organizando posso desorganizar".

E você, aí acomodado em seu adorável antro de paz e tolerância, se pergunta a razão ou a gama de motivos que me levaram a esse inconformismo.Que rufem os tambores, toque a orquestra da injustiça, o clamor da violência ascende aos céus meus senhores.Essa ira sobrehumana tem um nome que guarda em si sua razão fundamental: Pinheirinho.

Se a simples menção deste nome tão vilipendiado pela midía comercial, não lhe devolveu a memória gritos de dor e sons retumbantes de bombas, devo recomendar que procure um médico, mas não antes de desligar a televisão.Para esclarecê-lo vamos aos fatos meu nobre amigo, inevitavelmente dentro de ti surtará um monstro chamado Cidadão, uma criatura consciente do ambiente social e dotada de uma capacidade mutante altamente perigosa para o status quo: "a consciência".

A região em questão está localizada na cidade de São José dos Campos, administrada pelo Prefeito José Eduardo Cury, cria do ninho hegemônico do tucanato paulistano.O terreno pertencia ao empresário Naji Nahas, um libanês inescrupuloso - por favor, este adjetivo aplica-se ao sr. Naji e não aos libaneses - que desembarcou nas terras de cá com os bolsos pesados.Construiu uma rede de empresas e logo tornou-se conhecido da justiça brasileira, inicialmente em 1989, quando através de um sistema de especulação na qual investia valores captados via empréstimo bancário; "FUDEU" com a Bolsa de Valores carioca.Mais recentemente foi detido na operação Satiagraha, e depois de tudo isso continua em liberdade, claro que isso é um direito dele e não vamos aqui questionar o mérito dessa decisão.

Nahas acumula 15 milhões em dividas com o municipio e acionou o judiciário para reaver o terreno ocupado pelas famílias.A área ocupada pelas 7 mil famílias corresponde à massa falida de uma das empresas administrada pelo empresário em questão.Eu, particularmente, suspeito que a ação tenha como objetivo final entregar o terreno a cidade, que logo-o lançaria às presas da famigerada especulação imobiliária,de forma que o débito do especulador seria saldado.A questão é que eram lares que abrigavam famílias, com pais, mães, crianças e idosos e num estado com elevadíssimo déficit de moradia toda essa infra-estrutura foi sepultada em nome de um especulador processado?

Claro que a ética jurídica determina que as decisões judiciais tenham como pilar fundamental aquilo que está escrito na Constituição, mas o que pensar quando uma decisão polêmica tem por trás interesses tão escusos?Podemos estabelecer uma série de laços entre os principais nomes da barbárie testemunhada lá.Começemos pelo Promotor Capez cuja família é muito próxima do tucanato, possuindo até eleitos pelo partido; já não temos aí um impecílio para que um assunto desta porte fosse parar nas mãos deste senhor?E claro, temos o prefeito Eduardo Cury dentre as cadeiras do PSDB e todos eles já posaram juntos para fotografias da high society paulistana adoráveis leitores, aceitável?

Outro fato suspeito é que o promotor atropelou uma decisão judicial favorável a suspensão da reintegração da posse, e que logo cedo estava na comunidade à espera dos pm's para assim celebrar mais uma conquista da especulação.Se não bastasse isso, temos o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, o desembargador Ivan Sartori; arrastando para as asas da instituição a responsabilidade por uma operação policial do porte daquela que vimos no Pinheirinho,ora que seja entregue à Polícia Militar um título de autonomia instituicional com o qual ela possa fazer o que bem entende, sem que tenha de se submeter ao crivo do Palácio dos Bandeirantes, pra que poder Executivo?

De acordo com o portal UOL há mais de 500 denúncias protocoladas junto ao Conselho Estadual de Direitos Humanos, todas de pessoas que de alguma forma tiveram sua integridade violada durante a ação policial na região.Esse número não totaliza os moradores atingidos, muitos estão hospitalizados ou simplesmente ocupados com outros assuntos além de um mero processo incrédulo como este, infelizmente.Há tambem as acusações de obitos dentro da comunidade, alem de um rapaz baleado enquanto tentava salvar o filho quando da invasão de sua casa pela PM.Há casos de vizinhos cujas casas foram bombardeadas com gás lacrimogênio, uma atitude que jamais poderia ser entendida como um erro técnico de operação, pessoas que não puderam deixar seus lares para levar pessoas ao médico.

No dia seguinte a desocupação e expulsão dos moradores, todas as casas foram etiquetadas e depois derrubadas.Não houve tempo para que seus respectivos donos retirassem os pertences, além do inexplicável etiquetamento dos lares.Tudo foi derrubado independentemente do que estava dentro e pouco depois, assistiu-se uma grande labareda devorar lentamente cada casa.

Disparou-se contra os moradores sob a òtica da ocupação irregular, lembremos aos desavisados critícos que ali havia cobrança de àgua e luz, além de iptu e casas de alvenaria cuja construção exigirá recursos de seus moradores.A que ilegalidade refere-se o Estado quando este; mesmo ofertando um serviço precário; cobrou assiduamente por sua existência vexaminosa?

Depois dessa breve listagem pergunto-lhe se ainda consegue confiar no "Estado de Direito Democrático?"Caso você me responda que sim eu vou me perguntar se devo ou não considerá-lo cego, não se propõe aqui uma revolução seja pra lá ou para cá, o que proponho é uma reflexão acerca do que é uma democracia, o que é a representatividade e até que ponto um governo legalmente constituido pode agir como agiu no Pinheirinho.Quando um Estado assume o semblante de um tirano submeter-se a ele é cumplicidade.


Renato Dias de Sousa.

Vidas de alvenaria.

Quebra-se o silêncio da aurora enfumaçada.A luz pálida e timída abraça as janelas de vidro e ferro, a cidade das grades.Do alto dos prédios acende o despertar dos muitos, lá embaixo o asfalto gélido ainda espera o singelo contato solar.O berro ensandecido do despertador irrompe e devasta, aos saltos estão todos preparados para o dia que se abre prematuro.Vestem-se, parece até uma dança sem coreografia os movimentos temperados de pressa.Estão prontos.

Elevador a

b

a

i

x

o

Abre-se a porta, emergem os congestionamentos.Fileiras de máquinas penduradas pelas ruas feito roupas nos varais, feito naus entregues ao sabor dos ares num mar virgem de ventos.Pelos trilhos as serpentes metálicas engolem multidões, cospem os restos das outras e seguem em frente, caladas.A cidade do concreto apresenta-se para mais um espetáculo.

Meg

Não sei o que faz estendida sobre a cama, será descanso?Mas que repouso encontra assim, estática e contemplativa diante da parede?Ah eu não sei e minha razão não me permite deduzir ou imaginar.Quando-a acaricio lentamente sinto romper o silêncio até então veredito, e todo o seu corpo se contorce de alegria e ansiedade e movem-se suas patas e orelhas, e ela se volta para mim pendurando de um hemisfério a outro um sorriso sem palavras; um gesto de compaixão e entendimento.E ela vem rebolando e cheia de dança tentando premiar a si própria com minha atenção, deita-se carinhosamente sobre meus dedos e procura neste simples contato me dizer que precisa de carinho.Ah, tão pequena e tão grande ao mesmo tempo, tão senhora de si e de mim, como pode tão singela criatura ter sido abençoada com olhos tão negros e doces quanto uma jaboticaba.Eterna criaça deita-se de novo mas suas orelhas estão de pé, qualquer simples obstrução no ar será captada e sei que ela vai se virar para mim, como se esperasse mais carinho e mais brincadeiras, como se esperasse de mim o que realmente sou.

Meg.


Renato Dias de Sousa