Admiráveis leitores, não posso em tão poucas linhas condensar a repugnância que se abate sobre mim, sobre minha humanidade; toma de assalto a fonte do meu ser e acende meu inssurecto interior.Estou inquieto e minha consciência ferve,meu corpo pede ação, meu espírito exige que eu faça algo e estou plenamente disposto a fazer, pois como cantou o Chico Science: "eu me organizando posso desorganizar".
E você, aí acomodado em seu adorável antro de paz e tolerância, se pergunta a razão ou a gama de motivos que me levaram a esse inconformismo.Que rufem os tambores, toque a orquestra da injustiça, o clamor da violência ascende aos céus meus senhores.Essa ira sobrehumana tem um nome que guarda em si sua razão fundamental: Pinheirinho.
Se a simples menção deste nome tão vilipendiado pela midía comercial, não lhe devolveu a memória gritos de dor e sons retumbantes de bombas, devo recomendar que procure um médico, mas não antes de desligar a televisão.Para esclarecê-lo vamos aos fatos meu nobre amigo, inevitavelmente dentro de ti surtará um monstro chamado Cidadão, uma criatura consciente do ambiente social e dotada de uma capacidade mutante altamente perigosa para o status quo: "a consciência".
A região em questão está localizada na cidade de São José dos Campos, administrada pelo Prefeito José Eduardo Cury, cria do ninho hegemônico do tucanato paulistano.O terreno pertencia ao empresário Naji Nahas, um libanês inescrupuloso - por favor, este adjetivo aplica-se ao sr. Naji e não aos libaneses - que desembarcou nas terras de cá com os bolsos pesados.Construiu uma rede de empresas e logo tornou-se conhecido da justiça brasileira, inicialmente em 1989, quando através de um sistema de especulação na qual investia valores captados via empréstimo bancário; "FUDEU" com a Bolsa de Valores carioca.Mais recentemente foi detido na operação Satiagraha, e depois de tudo isso continua em liberdade, claro que isso é um direito dele e não vamos aqui questionar o mérito dessa decisão.
Nahas acumula 15 milhões em dividas com o municipio e acionou o judiciário para reaver o terreno ocupado pelas famílias.A área ocupada pelas 7 mil famílias corresponde à massa falida de uma das empresas administrada pelo empresário em questão.Eu, particularmente, suspeito que a ação tenha como objetivo final entregar o terreno a cidade, que logo-o lançaria às presas da famigerada especulação imobiliária,de forma que o débito do especulador seria saldado.A questão é que eram lares que abrigavam famílias, com pais, mães, crianças e idosos e num estado com elevadíssimo déficit de moradia toda essa infra-estrutura foi sepultada em nome de um especulador processado?
Claro que a ética jurídica determina que as decisões judiciais tenham como pilar fundamental aquilo que está escrito na Constituição, mas o que pensar quando uma decisão polêmica tem por trás interesses tão escusos?Podemos estabelecer uma série de laços entre os principais nomes da barbárie testemunhada lá.Começemos pelo Promotor Capez cuja família é muito próxima do tucanato, possuindo até eleitos pelo partido; já não temos aí um impecílio para que um assunto desta porte fosse parar nas mãos deste senhor?E claro, temos o prefeito Eduardo Cury dentre as cadeiras do PSDB e todos eles já posaram juntos para fotografias da high society paulistana adoráveis leitores, aceitável?
Outro fato suspeito é que o promotor atropelou uma decisão judicial favorável a suspensão da reintegração da posse, e que logo cedo estava na comunidade à espera dos pm's para assim celebrar mais uma conquista da especulação.Se não bastasse isso, temos o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, o desembargador Ivan Sartori; arrastando para as asas da instituição a responsabilidade por uma operação policial do porte daquela que vimos no Pinheirinho,ora que seja entregue à Polícia Militar um título de autonomia instituicional com o qual ela possa fazer o que bem entende, sem que tenha de se submeter ao crivo do Palácio dos Bandeirantes, pra que poder Executivo?
De acordo com o portal UOL há mais de 500 denúncias protocoladas junto ao Conselho Estadual de Direitos Humanos, todas de pessoas que de alguma forma tiveram sua integridade violada durante a ação policial na região.Esse número não totaliza os moradores atingidos, muitos estão hospitalizados ou simplesmente ocupados com outros assuntos além de um mero processo incrédulo como este, infelizmente.Há tambem as acusações de obitos dentro da comunidade, alem de um rapaz baleado enquanto tentava salvar o filho quando da invasão de sua casa pela PM.Há casos de vizinhos cujas casas foram bombardeadas com gás lacrimogênio, uma atitude que jamais poderia ser entendida como um erro técnico de operação, pessoas que não puderam deixar seus lares para levar pessoas ao médico.
No dia seguinte a desocupação e expulsão dos moradores, todas as casas foram etiquetadas e depois derrubadas.Não houve tempo para que seus respectivos donos retirassem os pertences, além do inexplicável etiquetamento dos lares.Tudo foi derrubado independentemente do que estava dentro e pouco depois, assistiu-se uma grande labareda devorar lentamente cada casa.
Disparou-se contra os moradores sob a òtica da ocupação irregular, lembremos aos desavisados critícos que ali havia cobrança de àgua e luz, além de iptu e casas de alvenaria cuja construção exigirá recursos de seus moradores.A que ilegalidade refere-se o Estado quando este; mesmo ofertando um serviço precário; cobrou assiduamente por sua existência vexaminosa?
Depois dessa breve listagem pergunto-lhe se ainda consegue confiar no "Estado de Direito Democrático?"Caso você me responda que sim eu vou me perguntar se devo ou não considerá-lo cego, não se propõe aqui uma revolução seja pra lá ou para cá, o que proponho é uma reflexão acerca do que é uma democracia, o que é a representatividade e até que ponto um governo legalmente constituido pode agir como agiu no Pinheirinho.Quando um Estado assume o semblante de um tirano submeter-se a ele é cumplicidade.
Renato Dias de Sousa.