quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Jure.

Tão intensos o que me causas que mal posso colar palavras para descrevê-lo.
Quando sorri leva com os lábios toda minha graça para longe, perco-me todo e não encontro na terra firme raiz fecunda para sustentar-me.
Quem és para me ter assim de forma tão pura?
O que abriga neste corpo de forma tal que-a desejo sem fome?

Vou me recolhendo aos teus pés,colhendo pedaços mil para construir o que sou aos teus olhos.
Quando-a vejo com tua pele de nuvens coberta num jardim sem fim de flores belas, só posso pendurar em meu rosto rude e ferido um sorriso, seguido dos meus braços abertos prontos para receber toda sua dor.
Dor de peito aberto num mundo tão senil.

Venha cá venha, sente-se aqui ao meu lado e mire as estrelas que refletem teus olhos lá no céu escuro.
Seus medos nada são agora senão sobras do seu passado de grandiosidade enclausurada.
A partir de agora és livre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Liberto-me

Quem me dera ter o dom de pescar palavras aqui dentro, capturá-las nos céus nebulosos deste pensamento tão tempestuoso e arrastá-las em segurança até a primavera de meu peito, aonde guardo cada gesto teu em segredo e desvelo, para que jamais permita a vida registrar nestes olhos as lágrimas dos teus.

Não fui talhado em jeito de amor e prosa, meu vocabulário é uma selva densa de alvenaria emaranhada, prédios apontados para a alma aonde estão sepultados todos os meus eus, pois não sou um único feito de uma essencia ímpar.

Perturba-me a honra de estar nos pensamentos de outro ser, individual e único repleto de dilemas.Meus gestos se perdem e minha orientação restrita torna-se ausente, deixo-me a deriva num oceano bravio de ondas que saltam e giram,engolem e levam pra longe. Então, me devolvo a superfície e me vejo tão pequeno, insignificante e sonhador.Tão nada que empreendo todo meu ser em coisas que somem na imensidão calada, então mergulho no reflexo que o espelho me oferece todas as manhâs e questiono: quais os motivos que me fizeram assim? Poderia abrir a janela e num grito exaurir minha alma cativa num gesto de liberdade mas, gestos são mais representativos do que manifestações concretas do que se deseja verdadeiramente ser ou fazer, então de nada adiantaria berrar feito um Livre se disso nada sei, senão que estou tão longe de sê-lo.

Mas acima de tudo, o importante é estar aqui diante de mim e assim testemunhar quem sou, e vislumbrar nas brechas do futuro o que estou construindo agora.

Eu.

Árido.

A Raínha da aridez perderá a majestade, toda sua divindade se dezfez em pó e mortandade.Envolvida em véus e trapos, estava ali seu mausoléu aos pés ressecados de uma matula qualquer, coletivo de carniceiros trazidos do horizonte além para embriagar-se da dor alheia.

Nos lábios estavam cravadas nas fissuras as histórias de outras mil criaturas, todas mudas quase mulas deixadas ao como querer o sol.Sujeito ardente se apresentava de um canto a outro abrilhantando a urubuzada.Tingia de ouro o que de valor mal possuia, ditava o traje da festança e incendiava o pouco que restava de esperança.

Sob o teto de palha erguido, abaixo das frestas e outras brechas, fazia-se grande reza em celebração à criatura.Nobre dama das curvas podadas quase nulas, ao tempo brochará feito flor para logo em tão pouco se perder em dor.De quando em quando um berrava, noutro canto havia quem com a fé trocava tapas, lá no meio estavam as moçoilas esvaziando-se aos prantos teatrais e no centro, num silêncio de morte; o esposo, o amado viúvo.

O moço não falava e só quem do casal andava próximo conhecia a relação, muitos outros atraídos de longe pelo fedor da morte desconheciam o companheiro da moça, e consideravam-na meretirz de alto valor ou quem sabe uma divindade que abandonará os prazeres da vida, em troca de uma vida santa e ali mesmo, no ritual de passagem entre a existência e a inexistência discutiam suas formas consumidas pela morte.

Não vieram flores pois nas redondezas plantas de muitas cores não se via, a tirana aridez não tolerava o desafio de sua autoridade permeável.As lembranças da falecida vinham em forma de palavras, mentiras desmedidas projetadas pelas damas locais, as mesmas que invejavam a beleza arrastada pela Morte.

Veio a ùltima hora e vieram os parentes com uma caixa de madeira, seu lar eterno esperava.O marido não moveu nem sombrancelha ou pensamento, permitiu-se ficar acomodado no mesmo canto, abraçando o vazio deixado por quem ia.Perderá a guerra com a Morte, o exército inimigo avançará sobre sua paliçada e num golpe invisível devastou todos os seus amores.Ele ficou, estátua perene e vazia cuja imortalidade se restringia a viver a dor, com a intensidade de quem é apunhalado todos os dias, cada vez mais fundo e cada vez mais privado do fim...estava derrotado.

Quando a marcha cruzou a porta tudo deixou de existir aos olhos do homem calado.Suas mãos castigadas pela vida se abriram feito uma tela diante de sua fronte suada.Assistiu a si mesmo, a ruína de seus propósitos e o declínio dos próprios sonhos.O Sol lá de fora queimava a terra e sobre ela ardiam as almas destinadas ao subsolo; ao submundo dos condenados sem razão.Por onde andará Deus?Será que partiu para tão longe que de lá sua majestade sem fim tornava-se inútil?Ou se cansará daquela terra imensamente podre e vâ, talvez obsoleta e desnecessária aos seus designios divinos?Mais uma vez seu corpo se virou para o mundo lá fora e sua imensidão reduzida aos contornos daquela janela velha, lembrou-se do que sua mãe certa vez falou quando sobre a mesa faltava o básico: "A terra tudo nos fornece de boa vontade, mas quando sobre ela o homem não se faz digno a mesma terra-o toma a vida, e de mãos dadas com a morte sentencia teu fim para sempre".Aquelas palavras somaram-se a outros tantos pensamentos que iam de um lado a outro da sua mente, e ricocheteavam voltando e partindo e voltando e, lentamente; começou a surgir uma ideia embrionária, algo que cintilava no vazio de quem teve seu interior devorado..um ùltimo propósito vital.

A mãe perderá para o mundo e o pai idem, ele permaneceu e brandiu a causa paterna.Arranjará um amor certa vez, ao pé de uma àrvore jurou ter visto o mais belo de todos os frutos da terra.Aquele corpo que transformava em ginga o canto do acordeon parecia um presente, uma fruta que caiu vestida em flores e com os cabelos tingidos de noite quente, aonde os olhos eram as mais exibidas estrelas de todo o universo.Ah, naquele corpo edificado em perfeição viu toda a sua vida correr feliz, mas feito as palavras da mãe a terra tomou, primeiro o filho que mal teve tempo de provar o calor do mundo e suas injustiças; de tão cedo que foi.Depois e agora quem ia porta afora era o seu amor, prometida à terra quente e aos seus corredores ocultos.Sua causa parecia perdida.

O pequeno grão de ideia que germinará ganhou forma e força.Cresçeu vigorosamente em questão de segundos dentro do vazio fértil do pobre homem.Logo todo o seu corpo se contorceu e se preencheu de uma ùnica razão: vingança, e o alvo era fácil pois andava às próximas de seu caçador, não precisaria de muito para apanhá-lo sem piedade.Era a Morte quem o homem desejava e sobre o guarda-roupa pescou o passaporte de sua viagem se volta.Oito balas mas uma lhe bastava, pretendia preservar as outras sete para sete juras de ira e fogo.Faria com que sua vitíma pagasse, antes que levassem para longe seu amor todos puderam ouvir um estampido, o som de um ponto final, o ùltimo ato e seus telespectadores já sabiam tão bem dos rumos daquela peça que nem esperaram pela queda das cortinas, seguiram em frente para logo mais recolher seu ator, deixado sobre o palco mais uma vez e sua causa se desfez novamente em fracasso, para ele e tantos outros não passou de um devaneio.Certa vez dirá o pai, afogado em lágrimas; que sobreviver parecia uma ousadia e aos homens restava tornar tal atrevimento uma causa, a mesma que levará ambos para debaixo da terra.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pinheirinho: terrorismo instituicional.

Admiráveis leitores, não posso em tão poucas linhas condensar a repugnância que se abate sobre mim, sobre minha humanidade; toma de assalto a fonte do meu ser e acende meu inssurecto interior.Estou inquieto e minha consciência ferve,meu corpo pede ação, meu espírito exige que eu faça algo e estou plenamente disposto a fazer, pois como cantou o Chico Science: "eu me organizando posso desorganizar".

E você, aí acomodado em seu adorável antro de paz e tolerância, se pergunta a razão ou a gama de motivos que me levaram a esse inconformismo.Que rufem os tambores, toque a orquestra da injustiça, o clamor da violência ascende aos céus meus senhores.Essa ira sobrehumana tem um nome que guarda em si sua razão fundamental: Pinheirinho.

Se a simples menção deste nome tão vilipendiado pela midía comercial, não lhe devolveu a memória gritos de dor e sons retumbantes de bombas, devo recomendar que procure um médico, mas não antes de desligar a televisão.Para esclarecê-lo vamos aos fatos meu nobre amigo, inevitavelmente dentro de ti surtará um monstro chamado Cidadão, uma criatura consciente do ambiente social e dotada de uma capacidade mutante altamente perigosa para o status quo: "a consciência".

A região em questão está localizada na cidade de São José dos Campos, administrada pelo Prefeito José Eduardo Cury, cria do ninho hegemônico do tucanato paulistano.O terreno pertencia ao empresário Naji Nahas, um libanês inescrupuloso - por favor, este adjetivo aplica-se ao sr. Naji e não aos libaneses - que desembarcou nas terras de cá com os bolsos pesados.Construiu uma rede de empresas e logo tornou-se conhecido da justiça brasileira, inicialmente em 1989, quando através de um sistema de especulação na qual investia valores captados via empréstimo bancário; "FUDEU" com a Bolsa de Valores carioca.Mais recentemente foi detido na operação Satiagraha, e depois de tudo isso continua em liberdade, claro que isso é um direito dele e não vamos aqui questionar o mérito dessa decisão.

Nahas acumula 15 milhões em dividas com o municipio e acionou o judiciário para reaver o terreno ocupado pelas famílias.A área ocupada pelas 7 mil famílias corresponde à massa falida de uma das empresas administrada pelo empresário em questão.Eu, particularmente, suspeito que a ação tenha como objetivo final entregar o terreno a cidade, que logo-o lançaria às presas da famigerada especulação imobiliária,de forma que o débito do especulador seria saldado.A questão é que eram lares que abrigavam famílias, com pais, mães, crianças e idosos e num estado com elevadíssimo déficit de moradia toda essa infra-estrutura foi sepultada em nome de um especulador processado?

Claro que a ética jurídica determina que as decisões judiciais tenham como pilar fundamental aquilo que está escrito na Constituição, mas o que pensar quando uma decisão polêmica tem por trás interesses tão escusos?Podemos estabelecer uma série de laços entre os principais nomes da barbárie testemunhada lá.Começemos pelo Promotor Capez cuja família é muito próxima do tucanato, possuindo até eleitos pelo partido; já não temos aí um impecílio para que um assunto desta porte fosse parar nas mãos deste senhor?E claro, temos o prefeito Eduardo Cury dentre as cadeiras do PSDB e todos eles já posaram juntos para fotografias da high society paulistana adoráveis leitores, aceitável?

Outro fato suspeito é que o promotor atropelou uma decisão judicial favorável a suspensão da reintegração da posse, e que logo cedo estava na comunidade à espera dos pm's para assim celebrar mais uma conquista da especulação.Se não bastasse isso, temos o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, o desembargador Ivan Sartori; arrastando para as asas da instituição a responsabilidade por uma operação policial do porte daquela que vimos no Pinheirinho,ora que seja entregue à Polícia Militar um título de autonomia instituicional com o qual ela possa fazer o que bem entende, sem que tenha de se submeter ao crivo do Palácio dos Bandeirantes, pra que poder Executivo?

De acordo com o portal UOL há mais de 500 denúncias protocoladas junto ao Conselho Estadual de Direitos Humanos, todas de pessoas que de alguma forma tiveram sua integridade violada durante a ação policial na região.Esse número não totaliza os moradores atingidos, muitos estão hospitalizados ou simplesmente ocupados com outros assuntos além de um mero processo incrédulo como este, infelizmente.Há tambem as acusações de obitos dentro da comunidade, alem de um rapaz baleado enquanto tentava salvar o filho quando da invasão de sua casa pela PM.Há casos de vizinhos cujas casas foram bombardeadas com gás lacrimogênio, uma atitude que jamais poderia ser entendida como um erro técnico de operação, pessoas que não puderam deixar seus lares para levar pessoas ao médico.

No dia seguinte a desocupação e expulsão dos moradores, todas as casas foram etiquetadas e depois derrubadas.Não houve tempo para que seus respectivos donos retirassem os pertences, além do inexplicável etiquetamento dos lares.Tudo foi derrubado independentemente do que estava dentro e pouco depois, assistiu-se uma grande labareda devorar lentamente cada casa.

Disparou-se contra os moradores sob a òtica da ocupação irregular, lembremos aos desavisados critícos que ali havia cobrança de àgua e luz, além de iptu e casas de alvenaria cuja construção exigirá recursos de seus moradores.A que ilegalidade refere-se o Estado quando este; mesmo ofertando um serviço precário; cobrou assiduamente por sua existência vexaminosa?

Depois dessa breve listagem pergunto-lhe se ainda consegue confiar no "Estado de Direito Democrático?"Caso você me responda que sim eu vou me perguntar se devo ou não considerá-lo cego, não se propõe aqui uma revolução seja pra lá ou para cá, o que proponho é uma reflexão acerca do que é uma democracia, o que é a representatividade e até que ponto um governo legalmente constituido pode agir como agiu no Pinheirinho.Quando um Estado assume o semblante de um tirano submeter-se a ele é cumplicidade.


Renato Dias de Sousa.

Vidas de alvenaria.

Quebra-se o silêncio da aurora enfumaçada.A luz pálida e timída abraça as janelas de vidro e ferro, a cidade das grades.Do alto dos prédios acende o despertar dos muitos, lá embaixo o asfalto gélido ainda espera o singelo contato solar.O berro ensandecido do despertador irrompe e devasta, aos saltos estão todos preparados para o dia que se abre prematuro.Vestem-se, parece até uma dança sem coreografia os movimentos temperados de pressa.Estão prontos.

Elevador a

b

a

i

x

o

Abre-se a porta, emergem os congestionamentos.Fileiras de máquinas penduradas pelas ruas feito roupas nos varais, feito naus entregues ao sabor dos ares num mar virgem de ventos.Pelos trilhos as serpentes metálicas engolem multidões, cospem os restos das outras e seguem em frente, caladas.A cidade do concreto apresenta-se para mais um espetáculo.

Meg

Não sei o que faz estendida sobre a cama, será descanso?Mas que repouso encontra assim, estática e contemplativa diante da parede?Ah eu não sei e minha razão não me permite deduzir ou imaginar.Quando-a acaricio lentamente sinto romper o silêncio até então veredito, e todo o seu corpo se contorce de alegria e ansiedade e movem-se suas patas e orelhas, e ela se volta para mim pendurando de um hemisfério a outro um sorriso sem palavras; um gesto de compaixão e entendimento.E ela vem rebolando e cheia de dança tentando premiar a si própria com minha atenção, deita-se carinhosamente sobre meus dedos e procura neste simples contato me dizer que precisa de carinho.Ah, tão pequena e tão grande ao mesmo tempo, tão senhora de si e de mim, como pode tão singela criatura ter sido abençoada com olhos tão negros e doces quanto uma jaboticaba.Eterna criaça deita-se de novo mas suas orelhas estão de pé, qualquer simples obstrução no ar será captada e sei que ela vai se virar para mim, como se esperasse mais carinho e mais brincadeiras, como se esperasse de mim o que realmente sou.

Meg.


Renato Dias de Sousa