domingo, 11 de março de 2012

Faça chover

Quando a noite engole a cidade ela abandona seu ninho de concreto, parte em busca dos pedaços guardados nas ruas.Os olhos cujas lágrimas borraram os traços de maquiagem, mal percebem o caminho de prata à frente traçado pela lua, sua única testemunha.A sombra se arrasta pelas paredes e perdem-se sobre a calçada seus passos incertos.Os bolsos andavam tão leves e vazios quanto seu estomâgo e neles residia um abismo de solidão, tão abrupto e escarpado como aquele que carregava sob os seios consumados.Precisava...

O cheiro de combústivel queimado ao longo de todo um dia se instalou em seu nariz, sentia o corpo coberto de uma foligem urbana, algo que-a devorava de fora pra dentro, talvez as seringas e os monstros que com ela plantava em si mesma mas era tarde, o mundo-a condenará em nome de Deus e com seus vícios e pecados as portas do paraíso jamais se abririam.

Sentiu que aquela caminhada-a levaria para o horizonte e ainda além, algo que rompesse os limites universais e transcendesse a razão.A garrafa se esvaziou e com traços de uma vitalidade quase perdida lançou-na longe, para que explodisse contra o muro e seus pedaços chovessem brilhantes sobre o asfalto úmido da noite virgem.Desejou ser como aquele objeto que lançado contra o concreto se partiria tão violentamente e depois disso se espalharia pela terra, premiando a selva de prédios com partes de sua vida, divididas sem perder a grandeza.

Lembrou-se de tudo que um dia jurou real, tudo o que havia aquecido seu coração e tomado seus pensamentos.Há muito tempo quando viva desejou e amou alguém, aninhou um completo desconhecido em seu peito e arranjou para ele um comôdo inteiro em sua vida, dividiu cada porção de sua existênca, mas agora tudo isso parecia surreal demais, uma projeção costurada pelos teus dedos fragéis ou quem sabe uma história de consolo para amenizar a onipresente sensação do fim.

Seu desejo de alcançar uma distância proibida aos teus passos a levou ao topo de um edíficio.De lá observou a lua mais uma vez, tão majestosa e imponente e com as mãos se despiu em prata e pareciam uma fruto da outra.A cada peça arrancada brotava uma lágrima que escorria, cruzava o esboço do ùltimo sorriso mortal e lavava teu corpo esculpido em uma noite de inverno, frio e brilhante mas fatalmente belo e delicado.As roupas no chão e com elas todas as inverdades e dores, os medos estavam todos ali deixados sobre o concreto.Sentiu alguem dizer-lhe ao pé dos ouvidos que nunca ouviu palavras de amor: "Faça chover", e ninguem jamais entendeu a tempestade que açoitou as janelas naquela madrugada,ninguem sabia.

Renato Dias de Sousa.

Um comentário:

  1. "Desejou ser como aquele objeto que lançado contra o concreto se partiria tão violentamente e depois disso se espalharia pela terra, premiando a selva de prédios com partes de sua vida, divididas sem perder a grandeza."

    Eu nunca sei o que dizer quando termino de ler um texto seu.
    São tão nus e lindos! Ainda que alguns tristes, alguns cortantes, ainda que uns cuspam revolta. São de muita beleza.
    Fico buscando palavras, mas nenhuma complementa o que te leio.

    Esse se tornou um dos meus preferidos. Gratidão.

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