O corpo se lança sobre a cama, a mente mergulha nas profundezas do travesseiro. Da janela em diante uma noite de céu vazio, a humanidade concretada já não interessa mais às estrelas.
Mil pensamentos me abatem e assaltam a condição sonolenta que me encaminhará àquele estado. Mares degladiam-se dentro de mim, tempestades despencam sobre meu intímo e já não reconheço minha própria forma. As nuvens negras que desfilam no céu tumular refletem meu mundo estendido sobre os lençóis, não quero me levantar, não quero reagir, meus oceanos transbordam com maremotos que ascendem aos olhos e sinto um desejo nuclear de explodir, explodir em silêncio, em segredo.
Quando me enviarem à imortal prestação de contas perante o crivo do Grande Construtor, hei de fazê-lo ouvir todas as minhas queixas diretas à falsa perfeição com que erguerá sua obra. Em toda a sua experiência de Senhor do Universo como poderia plantar em sua maior realização seres tão complexos? Espero que ele não me venha com desculpas ou justificativas celestiais, que me envie logo às profundezas e silencie em mim todos estes questionamentos. Talvez sua arrogância elevada à potência divina jamais admita o fracasso na construção dos homens, faltou um botão para ejetar e disparar do corpo rumo à imensidão eterna, sem necessidade de explicação. Explodir e se dividir em milhões de pedaços essenciais à se esparramar pelo mundo, nas velhas tempestades.
A embriaguez foi uma invenção mundana especial pois poucos remédios ceifam as raízes humanas. As garrafas vazias inundam a alma de uma liberdade para "ser" que rompe as portas e grades do bom senso, aí eclode o verdadeiro homem em lágrimas ou sorrisos, a sinceridade sem cêra. A sanidade ludibria, sepulta e submerge o verdadeiro homem dentro de padrões que nas profundezas do ser perfuram-no aos poucos, fazendo com que ele sangre, sangre, sangre e então é o sangue quem aspira à superfície e contra ele não há obstáculo páreo, de forma tal que repentinamente tudo desaba e a vida parece vazio; um vazio suportado por décadas que mais parecem séculos e no reflexo de vidro saltam marcas, sentenças e fissuras de tristeza e um desejo brota para nem tão cedo se quebrar: o desejo de partir.
Caramba! Eu queria explodir, eu realmente queria explodir e me preencher da sensação de abraçar o mundo aos pedaços, de ser ao mesmo tantos de tão pouco. Aguardaria por dias secos que fariam das nuvens baús fartos de umidade, prontos para chorar e chorar inundando a dor dos homens e então, eu acionaria dentro de mim a própria bomba carregada no peito, ela que me distribui a vida individual se partiria em porções múltiplas transportadas pelos ventos até os céus e de lá; com a primeira grande tempestade; eu gostaria de despencar sobre a humanidade...eu gostaria de chover sobre a humanidade.
Ferir dói...
"Frutos do mundo, somos os homens"
Renato Dias de Sousa, terrorista de si mesmo