Perceber a cidade pode parecer simples demais como se bastasse deitar os olhos sobre toda a sua riqueza morta. Com seus prédios e ruas estreitas, tomadas por carros, a cidade nos abraça e veda sem que possamos desnudá-la e assim expor o quanto seu concreto é crú.
Perceber a cidade é senti-la sob os pés a cada passo, apalpar teus muros e poucas plantas num desejo ardente de compreensão. Tocá-la como quem percorre um corpo nu nas pontas dos dedos, atiçando a fome ali guardada, estudando suas contradições. Os olhos não bastam senão para convidar à aproximação, fundar na terra de alvenaria raízes que subvertam a geografia do desespero, que cada vez mais afugenta as pessoas do ambiente público para interná-las no seio do privado, aninhá-las do ambiente de convívio para mantê-las sob controle no intimidade do lar tão preservado.
Quando teus olhos percorrem uma série de sobrados comerciais sitiados por grandes edifícios o que pensar? Um olhar descuidado ou quem sabe vazio de sensibilidade, não enxergaria nada além do exposto, nada além do que querem lhe mostrar. Distintos são os olhos perspicazes dos famintos, cujo foco perfura e se aprofunda; cava e prospecta o verdadeiro sentido do mecanismo urbano. A cidade se desenvolve e se renova engolindo o próprio espaço, uma autofagia antropofágica seguida de uma reciclagem orientada pela lógica capitalista. A produção do urbano se orienta cada vez mais para a transformação num sentido potencialmente administrativo, em que bairros inteiros tem sua função residencial deletada da superfície, toma seu lugar uma outra vocação: a dos altos prédios tomados por janelas.
A especulação imobiliária (ou socialização contraditória como diz Marx) conta com uma permissividade de um Estado quase cego, que se vê sem muitas opções diante do direcionamento dos investimentos públicos no espaço urbano. As ações de reurbanização nas quais se argumenta uma busca pela recuperação do espaço, muitas vezes tem na verdade um espírito pautado pelo privado se beneficiando do público. Projetos como os da "Nova luz" e como a recuperação do Largo da Batata parecem orientados para esse fim, quebra-se uma lógica presente para se injetar uma nova orientada pelas relações de capital.
Quem cruza o Largo da Batata no coração do bairro de Pinheiros, nota que em torno dos pontos de ônibus centrados na extensa praça concretada, desenvolve-se uma famigerada inversão da lógica micro-comercial da região. Os botecos e pequenas casas de show estão sendo aos poucos expurgados pelas incorporadoras e construtoras, que estendem o sentido administrativo de prédios de escritório; característica da avenida Faria Lima; para lá. Do ponto de ônibus tem-se a sensação de que os prédios são plantados como que cercando a região, uma noção aterradora do espaço público como espaço democrático de coletividade.
Não faço destas palavras as expressões de um pensamento urbanista técnico. O texto de uma ponta a outra é a simples transposição de uma série de reflexões para palavras ordenadas, ou quem sabe desordenadas mesmo, fruto de um pensamento caótico. A cidade está me assustando quando cresce verticalmente eliminando cada vez mais o público, projetando ambientes que isolam as pessoas dentro dos muros, fortificações de espírito feudal que reúnem as principais necessidades humanas que nos levam a ter contato uns com os outros. Eis a Geografia do Desespero, aquela que preza por um espaço cada vez mais restrito e elitizado em detrimento da coletividade, da convivência e do bem estar.
"Em breve, menos sol e mais concreto"
Renato Dias de Sousa, um simples graduando de Geografia.
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