quinta-feira, 3 de maio de 2012

Rápido demais

E se fosse toda aquela velocidade sem destino um simples capítulo qualquer sem significado algum? A humanidade jamais saberia que em uma determinada noite de Abril dois jovens rasgaram a penumbra gelada em uma máquina de combustão infernal, cuja agilidade sobre o asfalto parecia distorcer a realidade arrastando as cores dos postes e placas num arco íris de garranchos metálicos.Ninguém jamais saberia senão eles e quem sabe somente seus corações, as caixas registradoras de suas vidas que na próxima curva poderia ser rompida no abraço selvagem de um poste ou quem sabe de uma árvore, mas mora na verdade a mentira de que ninguém precisaria saber.Dois números a menos que logo seriam substituidos, outros quem sabe mais normais assumiriam os postos deixados por suas sombras.Carrascos dos próprios medos à desbravar no seio da estrada as trincheiras da vida, apostando alto nas doses de embriaguez trazidas das curvas sem fim.Poderiam ter feito muito e ainda sim seria pouco, tudo tão pouco e tão breve que nem mesmo as mais belas palavras poderiam mascarar.A cidade-os cospe com sua língua de asfalto salpicada do sangue urbano, dois indigestos expulsos de seu organismo entorpecido e irracional.Dos lados vidas marginais correndo ou não nos sentidos contrários construindo casas de areia aos olhos das nuvens que disseram ser de algodão doce.A realidade é tão salgada quanto hipertensa e com o tempo não mata mas arranca aos poucos a vitalidade e a humanidade.Os homens se esquecem do quanto são imperfeitos e se cansam de redescobrir que na perfeição só mora a sanidade duvidosa dos solitários e tristes, pois pelos esgotos do mundo escorrem sem norte aqueles que se cansaram e não esperam dos céus nada senão chuva para que se afoguem na mais concreta e pura demonstração de divindade.

Renato Dias de Sousa

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