Às vezes quero acreditar que realmente somos os autores de nossas próprias vidas. Me apego a slogans publicitários que trabalham por convencer a consumir o que desejo, resumindo a esse gesto trivial a maior manifestação de liberdade da qual um homem é capaz. Caramba, do que me serve a razão então? Será ela a monarca cuja tirania reina dos meus cabelos às unhas do pé? De repente tudo tão diferente, vira-se um continente e toda a humanidade escorre para dentro do mar. De repente meu mundo passa a ser outro.
É muito difícil acostumar os olhos com a ausência de uma flor com a qual despertou diariamente. Parece que os dias nasciam ensolarados para ela e agora toda a palidez convicta se faz perene, enraizada na tristeza que me abate quando tomo conta do quanto o meu mundo envelheceu. Não são os pêlos que se penduram pelo queixo ou pelas laterais da face e nem mesmo a sua falta me traria sensação contrária. Tudo se transforma sem anunciar motivo e parece que há de ser mais violenta ainda a transformação que se avizinha, posso vê-la da janela sem flor e contra a qual chocam-se os ventos que um dia me foram gentis.
Poderiam as forças que sopram as marés geladas contra a minha janela, trazer um castigo. Quem sabe um golpe de misericórdia tão celére cujo desfecho se furtaria da humanidade. Partir feito tantos outros que se convertem num vazio inperceptível em meio à massa. Talvez assim encontrasse nos bastidores um script, algo que me convença da utilidade que talvez tenha ou da inutilidade da qual estou sempre certo. Me enganem entao e procurem pela retórica afiada me convencer de que não sou o culpado, ou mesmo sou e do contrário indiquem ante os meus olhos marejados quem tramou tudo isso, contra quem devo brandir o grito animalesco que vai ganhando sua forma disforme dentro de mim. A quem devo partir no desfile de uma lâmina da ira cega?
Poucas sensações afligem mais do que aquela que faz de ti uma peça nas mãos de alguma substância invisivel. De repente parece que não temos controle de nossas vidas e estamos todos num grande mar, ao sabor dos delírios dos céus que sopram de cá para lá lançando alguns contra a rocha e outros à maciez da terra firme. Eu me sinto abatido em pedaços esparramados sobre as pedras mais afiadas de todo o oceano. Cuspido sobre o corpo mais alto das cordilheiras oceânicas, sem forças para se recompor e nem mesmo posso assistir aos destinos que se rasgam diante de mim, a vida dói.
Por Renato Dias de Sousa, bem de repente.
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